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Arthur Pires, página inicial Agendar

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Transmissão e formação · 4 min de leitura ·

Da fala e da falha

Desenho a pincel de um rosto em tinta escura sobre papel
Imagem: lostine.com (site externo)

Me convocam à escrita desse texto duas das leituras que venho fazendo nesse meu período sabático que nada tem de interrupção do trabalho e da pesquisa. Esse período vem como espaço onde vem sendo possível elaborar algo da experiência que tive no último ano com a psicanálise nas instituições e a função desse encontro em minha formação.

Algo dessa experiência me levou à possibilidade de me deparar com algo de uma falha na imagem que tenho da instituição e das suficiências que as habitam. Algo que me fez perceber que não são tão suficientes assim. Me deparo com um furo que parece estar passando, em certa medida, de um abismo a um abrismo no sentido de uma abertura à possibilidade de criar algo em torno do que vem falhando em minha experiência.

Nisso a sensação de uma perda tremenda de algo que eu ao mesmo tempo que outro. Uma queda espelhada de mim sincrônica à percepção de que algo falha nisso que suponho como alguém outro para o qual posso tamponar uma falha. Nesse sentido, uma queda da esperança de uma onipotência. Não sei se pude fazer o passo ao impossível, pois talvez ainda esteja no lado da impotência nessa separação.

De todo modo, tal experiência me colocou diante da escolha entre calar-me, como escolho em minha cena, ou falar-me. Ou melhor, falar dIsso. Nesse momento me ocorre a cena da primeira palavra que disse, e que pôde ser escutada por alguém. Nesse ato não chamei por ninguém, mas dei nome a uma coisa que não eu no mundo. Um passo que ainda não sei como fui capaz de fazer.

Ainda hoje repito a mesma cena e me atrapalho no momento de tal escolha entre calar-me e falar dIsso. Escolher falar, para mim, carrega a possibilidade de consentir com a morte para que seja possível estar vivo. E penso que nesse percurso tão pessoal pude apreender algo do tornar-se herdeiro de algo. Uma experiência tão sozinha quanto pessoal, mas que só se dá na relação com um Outro capaz de escutar.

Tornar-me herdeiro na medida em que, no lugar de me calar diante da vociferação alheia, no puro gozo de outrem, decido falar. Fala que carrega em si um corte, mas também uma liberdade em relação ao meu próprio corpo e gozo tão sozinhos.

Nisso chego ao que desde o início pretendi escrever. No último mês me dediquei a duas leituras que me atravessaram, não à toa. Uma delas o livro de Bruno Sinischalchi, Luciano Dias e Natasha Helsinger intitulado “É de raça que estamos falando: Tornar-se herdeiro da psicanálise no Brasil”. Neste livro, os autores fazem uma pontuação acerca da ética de se tornar herdeiro e, em sua ocasião, a virada que nos é possível ao pensar a história da Psicanálise no Brasil a partir de questões de raça.

Paralelo e consequente a essa leitura, faço também um estudo do livro “O estilo de Lacan” de Christian Dunker. Nesse livro, em seu capítulo sobre a oralidade, pude ler a argumentação de Dunker acerca do porquê “a estratégia do estilo lacaniano nos previne contra elitismo…” (Dunker, 2025, p. 58). Isso, pois não adianta tudo compreender da fala de Lacan. É do que resta intraduzível, do impasse, de um basta que se pode falar de algo.

Nesse sentido, entendo que tornar-se herdeiro da psicanálise é um ato, algo que só se pode fazer sozinho, mas a partir do Outro. A partir do que dele se empresta. Separar-se não é aniquilar o Outro, mas considerá-lo enquanto alteritário e não autoritário a partir do que falha. É preciso que tenha havido um outro para ouvir o que temos a dizer. E é daí que partiu minha escrita.

Os textos publicados aqui são de trabalho e reflexão e não substituem atendimento profissional.