Jump to conclusions
ou dar um passo maior que as pernas

Pensar que se precipitar na compreensão de algo, em ambas as línguas, chama a atenção para os limites do corpo. A língua leva à compreensão de que o entendimento não passa só pelo raciocínio, mas por uma experiência de corpo. É com os sentidos (no plural) que se pode aprender, criar e passar pelo mundo. Mas alguns contemporâneos parecem não levar isso em consideração, seja por ignorância ou perversidade.
A ciência, quanto mais avança sobre o corpo, menos parece levá-lo em consideração. Não quero aqui corroborar com um discurso negacionista anti-científico. Tal avanço é importante e, inclusive, só é possível tirando da jogada o sujeito que habita o corpo. Importante é que a ciência prefira o método à evidência, pois esta esconde de maneira desavisada o sujeito que a descreve.
A minha crítica é a prática baseada em evidências. A Ciência evidente nos leva à ilusão do aprendizado sem corpo. A evidência é pornográfica e mata o erótico que mora no movimento em direção ao saber. O que quero dizer é que o que é evidente me parece imediato em tempo e espaço. A verdade e o saber fazem um em formato imagético com muita capacidade de reprodução, porém pouca possibilidade de encadeamento. Fica difícil avançar quando tudo é tão evidente. O saber-evidente não dá espaço para o diálogo. O que é possível aprender disso?
A era do saber-evidente combina com a infinidade de ofertas de cursos. Tudo é passível de aprendizado personalizado. A questão é que o personalizado não implica a singularidade, pois o consumidor é indivíduo. Saber indivisível não faz laço e vive na fantasia da onipotência, cai na espiral do sentido.
Daí fiquei pensando nas expressões “Jump to conclusions” ou “dar um passo maior do que as pernas”. O risco de cair é grande. Ambas as línguas me parecem levar em conta o corpo como alerta para o fato de que o aprendizado se dá nos limites do tempo e do corpo.
A relação com o saber é Erótica. Há sedução, afeto, corpo, tempo, limite. É a partir disso que o mundo passa pelo corpo e deixa suas marcas no contorno da singularidade de cada um. Quando se leva em conta a dimensão erótica do aprendizado fica impossível garantir eficácia e prometer resultado rápido. No aprender erótico a descoberta é um desvelamento, não uma evidência. O processo leva tempo, pois concluir cedo demais pode fazer o raciocínio fugir como foge um pássaro quando nos aproximamos rápido demais. O aprendizado não dá certo com movimentos bruscos. Seu desenvolvimento precisa de raízes, cascas, xilema, floema, etc. Florescer tem hora.
Nas limitações de aprender com o corpo, é possível quase tocar o infinito que, assim como no cosmos, é um infinito vazio e não o contrário. Daí a possibilidade do big-bang que ainda está acontecendo. Nós somos o big-bang.
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