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Arthur Pires, página inicial Agendar

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Performance e desempenho · 3 min de leitura ·

Levar a brincadeira muito a sério

não precisa ser super para ser herói da própria história

Luz e sombra desfocadas sobre uma superfície de ripas
Imagem: borrowedlightstudio.art (site externo)

“Repetir, repetir — até ficar diferente. Repetir é dom do estilo.”

Manoel de Barros, O livro das ignorãças

Muito se fala na performance como imperativo constituinte das subjetividades contemporâneas. Mas de que performance estamos tratando? Da crueza dos dados e mensurações de um desempenho? Talvez seja necessário dar um passo atrás para poder enxergar o enquadre. E daí, a performance poder ser vista enquanto apenas um papel, em sua incompletude1 que não se vê quando se está perto demais.

A crueza é carrasca de toda possibilidade de invenção. Ela é a linguagem do trauma enquanto experiência pura, irreversível e que só se recupera enquanto ranhura, cavidade, traço. Viver a vida nua e crua nada tem a ver com a possibilidade de fantasiar, sonhar, temer e esperançar. Não há amanhã nem ontem na crueldade. Pode haver até performance, mas sem alma.

Penso que, nesse contexto, a psicanálise muito tem a contribuir. Na positividade crua de uma performance a análise ensina a partir daquilo que dela se pode retirar. Apesar de nos preocuparmos muito com o que levar para o encontro com o psicanalista, é do que se sai dali que nos ensina. Ou até, é possível dizer, do que ali se subtrai. O que não encontra seus caminhos na palavra, retorna, ali mesmo, em performance, em atuação.

É preciso, portanto, diferenciar o que em minha compreensão diferencia a performance da atuação. Faço essa escrita a partir do meu vocabulário, que isso fique claro. É minha invenção.

Ao narrar sua história para alguém que está ali para simplesmente te escutar, a crueza se coze e cozinha. Ganha status de tragédia com direito a herói e tudo. Cada história, de cada sujeito, tem estrutura de obra-prima. Nisso a descoberta freudiana é fantástica. Tudo isso tem espaço no palco da transferência, da relação e do que nela acontece. Nesse palco se pode encenar a própria tragédia e, assim, torná-la não tão real. Levar muito a sério a brincadeira para levar com leveza a realidade.

Com isso, não se pode abrir mão de repetir. No entanto, repetir em cena. Repetir, repetir, repetir. Assim, o destino inescapável vira texto interpretável. A atuação muda os rumos de um roteiro. A repetição colocada a trabalho é abertura para muita novidade. Por isso, a brincadeira é coisa séria! E as empresas e lojas de brinquedo sabem muito bem disso.

Freud nos ensina, somos divididos em nós mesmos. Não só o que queremos falar ou pensamos, mas o que se diz e faz. Isso merece tratamento e também se leva para a análise. Os impasses, dificuldades e problemas relacionais que se apresentam na relação analítica também podem ser conteúdo do tratamento e muito têm a nos ensinar. E é claro que esse trabalho depende de esforço de ambos para que algo aconteça. É por isso que se paga.

Dar ouvido à repetição, à besteira, à brincadeira, ao que “não sei muito como dizer mas é assim que apareceu na minha cabeça” e todas as suas variações. Talvez, daí seja possível retirar muito mais do que em mensurações de desempenho. Essa, ao menos, é a minha aposta.

Notas

  1. O verbo “performar” tem sua origem no francês antigo e quer dizer “fornecer por completo”. Fonte: origemdapalavra.com.br (site externo). Voltar ao texto

Os textos publicados aqui são de trabalho e reflexão e não substituem atendimento profissional.